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Publicado em 02/11/2021

A Integridade do Futebol em Tempos de Apostas Digitais

Num mundo cada vez mais digital e pós-globalizado, as apostas esportivas ganharam roupagem moderna e contam com a funcionalidade dos aplicativos, facilmente disponíveis na palma da mão de cada usuário. A reboque do avanço tecnológico, as casas de apostas se multiplicaram como Gremlins em contato com a água e passaram a alimentar a cadeia produtiva do futebol com verbas e patrocínios ao redor do mundo, gerando receitas importantes para os clubes, porém expondo ao mesmo tempo, à luz da obviedade, uma série de antigos problemas verificados no velho mundo da bola, permeado por nuances e práticas nem sempre republicanas.

Infelizmente, os relatos de apostas manipuladas por agentes intimamente ligados ao futebol viraram rotina. Não, obviamente a culpa não é da tecnologia. As infrações contemporâneas, que trouxeram à tona velhas e péssimas histórias do lado negro do jogo, invariavelmente trazem como responsáveis os próprios jogadores dentro de campo, além de profissionais fora das quatro linhas e até dirigentes do mais alto escalão das equipes. As plataformas digitais são apenas um meio pelo qual quem quer fazer o errado consegue seus objetivos, dada a larga abrangência e capilaridade dos apostadores espalhados pelo mundo. Não existe mais o empecilho da restrição geográfica. O céu é o limite.

E se for para nos atermos à espaços geográficos, cabe dizer que a Polícia já deflagrou operações no Brasil que investigam partidas das divisões de acesso do Campeonato Paulista, além da primeira divisão de vários estados do Nordeste. Já houve caso até de partidas fantasmas, que obviamente sequer existiram, mas que conseguiram reunir elevado volume de apostas no exterior. Há pouco tempo, a direção do tradicional Sergipe de Aracaju denunciou jogadores que teriam manipulado jogos em plena Série D do Campeonato Brasileiro. Em tempos de equilíbrio técnico e futebol quase sempre nivelado por baixo, quem ainda acredita que goleadas acachapantes tenham surgido de situações naturais de jogo?  

O mercado de apostas online permite palpitar o resultado dos jogos de futebol e de eventos dentro deles. O chamado ´match-fixing` é o padrão mais utilizado pelos esquemas de manipulação, pois remuneram o usuário que acertar o placar final ou o número de gols da partida. Favor não negligenciar a atenção para o ´spot-fixing`, que trata do manejo de um evento aparentemente menor dentro da mesma partida, como o número de cartões amarelos e, principalmente, a quantidade de escanteios nos 90 minutos. Pois é, não existem limites para a criatividade de quem aposta no errado e é nessa hora que entra em cena um famoso exército de picaretas que o futebol sabe muito bem reunir: aqueles que estão próximos ao jogo e têm poder, intimidade ou legitimidade para tentar burlar a integridade do espetáculo.

Em se tratando de Brasil, a observação de resultados estranhos e jogos esquisitos pululam o noticiário esportivo e todos que estão inseridos no meio do futebol já aprenderam a lição: o risco existe e ele é mais explícito do que se imagina. Referidas fraudes remetem ao passado e é impossível não enxergar os fatos atuais como uma versão digitalizada do escândalo da Loteria Esportiva, denunciada pela Revista Placar, em 1982, e que puxava o fio do novelo das manipulações de resultados no futebol brasileiro a partir de uma quadrilha de interessados fora de campo, mas que contava com a astúcia de árbitros, dirigentes, treinadores e jogadores dentro das quatro linhas. Ao todo, 125 nomes foram denunciados a partir de um excelente trabalho jornalístico investigativo, que além de prêmios, ganhou estranhamente a ira do meio futebolístico. No país da impunidade, ninguém da máfia da loteria passou um dia sequer no xilindró porque o Brasil sempre mostrou muito bem a sua cara.

A manipulação dos resultados está em todos os páises e não pode ser tratada como algo inerente ao esporte. A integridade do jogo e das competições precisam ser preservadas e para isso entidades de fiscalização têm surgido mundo afora, além das normas de compliance que, aos poucos, passam a ser comuns também nos times de futebol. O jogo tem que ser limpo e malfeitores devem ser punidos e banidos. Não é saudável a negligência com o escárnio das manipulações digitalmente repaginadas. Esse assunto pode e deve figurar em qualquer debate moderno sobre o futebol que se apresente como sério, seja em rodas de discussão, fóruns, eventos ou programas de televisão. Silenciar diante desse problema dos tempos atuais é aceitar a convivência com o crime e, acima de tudo, é ser conivente com o fim do futebol.

Por
Evandro Ferreira Gomes
Technique Marketing Esportivo

 

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